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Chic'Ana

“Não posso mudar a direção do vento, mas posso ajustar as minhas velas para chegar sempre ao meu destino” by Jimmy Dean

Chic'Ana

“Não posso mudar a direção do vento, mas posso ajustar as minhas velas para chegar sempre ao meu destino” by Jimmy Dean

One smile a Day.. com a Caracol

E para terminar a semana em beleza, nada melhor que convidar a nossa Caracol. A Caracol é autora do blog com o mesmo nome "A Caracol", e trás-nos uma surpreendente história de Futebol. O blog dela é encantador, com muitos episódios e peripécias do dia a dia. Ficamos sempre com um sorriso na cara pois ela tem um jeito especial para relatar as coisas, como terão oportunidade de ler em seguida. É um texto grande, sim, mas prometo que nem darão pelo tempo passar!

 

Quando aceitei o convite da Chic, pensei de imediato numa outra peripécia, envolvendo também a Cunhada, numa superfície comercial. No entanto, e porque entraremos em fim de semana da final do Euro, acabei por escolher esta que, espero, vos divirta tanto como eu sempre a recordo.
 
Corria o ano de dois mil e qualquer coisa quando ingressei o ensino secundário. Uma turma nova, rapazes giros, nenhuma cara conhecida e uma mal encarada como colega de carteira.
 
Não podia ser melhor.
 
Era a oportunidade perfeita para me livrar, de vez, da alcunha horrível que me colocaram no 5ºano.
 
Turma nova, vida nova.
 
E foi.
 
Até chegar a aula de educação de física.
 
Nunca fui moça dada ao desporto, passem-me um livro para as mãos e era feliz, não precisa cá de corridas e de bolas e o diabo a sete.
 
Não tinha uma marcha certa, não sabia respirar, fugia das bolas como o diabo da cruz, não raras vezes fiquei encravada no cavalo estático (ou lá como raio se chama aquilo), tropeçava nos cordões das minhas próprias sapatilhas, enfim, tudo em bom para ser alvo de chacota.
 
Lembrei-me de respirar fundo no balneário, murmurando mentalmente que tudo iria correr bem, que era um ano novo, uma turma nova, que ninguém me conhecia e bastava eu ficar atrás, onde ninguém me visse.
 
Se calhar convém frisar que a escola era a mesma, só a turma diferia. E também que, apesar de não ser amiga de ninguém, muitos já me conheciam daqui ou dali.
 
Avancemos então.
 
Enquanto seguia com o restante grupo para o campo, ia pedindo a todos os santinhos e mais alguns para que o professor não se lembrasse de nos pôr a jogar futebol. Ou basquet. Ou andebol. Ou qualquer outra coisa que envolvesse bolas e corrida e braços e pernas.
 
Por mim até podíamos ter uma aula teórica. Era na boa. Tudo menos exercitar músculos.
 
Tá bem abelha.
 
Era a primeira aula, a maioria dos alunos eram rapazes (giros, não sei se já disse) que jogavam futebol ao fim de semana e tinham fama de maus rapazes nos corredores, o professor era novo, queria criar empatia com a juventude e pumbas!, futebol na rifa.
'
"Oh, valham-me os deuses! Estou feita!"
 
Ofereci-me de imediato para ficar como suplente, um lugar sempre seguro.
 
Não, não podia ser, a turma era pequena, todos tinham que jogar.
 
"Não te preocupes, ficas na baliza." - disse um tentando sossegar o meu coração dessassegado.
 
"Baliza?! Mas baliza?! Como assim baliza?!" - nesta altura já transpirava como se o jogo fosse a meio.
 
"Eu acho melhor ela ficar à frente."
 
Estiveram ali um bocado a deliberar as posições de cada um e qual seria a mais indicada para a rapariga franzina e medrosa que se lhes tinha calhado, falando uma língua estranha de táticas e coberturas a possíveis ameaças.
 
"Ficas ali e qualquer coisa passas a bola para um de nós."
 
Para cúmulo da minha sorte, era a única rapariga naquela equipa e havia picardias entre moços das duas partes.
 
Bonito.
 
Os primeiros minutos até correram bem, a bola rolava, os rapazes faziam-lhe o cerco, as raparigas estavam empenhadas em correr tanto como eles, faziam gestos e gritavam "aqui! aqui!" como se fossem o novo messias do campo, ao passo que eu, Caracolita, ia correndo devagarinho, sem me aproximar muito da bola e do amontoado de ganapada que a circundava.
 
Até que a bola me veio parar aos pés.
 
Não sei como, mas ela veio.
 
"Passa!" - dizia um.
 
"Aqui!" - dizia o outro.
 
E eu baralhada, com uma bola aos pés, a vê-los todos cobertos pelo adversário e a pensar rapidamente no que fazer.
 
O caminho para a baliza estava livre.
 
Muito livre.
 
Tão livre que nem achei estranho.
 
Não me queria livrar da alcunha? Aqui tinha a minha oportunidade.
 
Estava muito próxima da baliza, o pobre guarda redes nem teve tempo de se aperceber da minha intenção.
 
Enquanto chutava, com toda a minha força, decisão e orgulho, vejo um dos rapazes aflito, muito vermelho, gritando e esbracejando um "não faças isso!"
 
Mas eu fiz!
 
Eu fui mais forte que todas as minhas inseguranças.
 
Ultrapassei a barreira que me separava de ser a próxima líder de equipa feminina. Talvez agora até passasse a gostar de bola e desporto.
 
Eu consegui!
 
Marquei um golaço do caneco!
 
Na baliza da minha equipa.
 
Claro que a alcunha voltou na mesma hora com um "Não me viste ali? À tua frente? Além de Caracol também és cega?" e eu voltei ao lugar dos suplentes.
 
Não voltei a jogar em ocasiões importantes, mas fiquei com um bronze do caraças.

Pois é Caracol, parece-me que terias um futuro risonho nesta área, tal e qual Judas!!

aureolos_112.jpg

 

Muito obrigada por esta partilha tão divertida, mas fiquei curiosa relativamente à peripécia com a Sara! Tens de a contar!!

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